sexta-feira, 28 de março de 2008

Trechos.

"(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)"

Álvaro de Campos, 'Tabacaria' (excerto)

" (...) mudanças que demonstram que assim como há sins que não são sins mas nãos, há também nãos que nãos são não mas sins, de modo que tudo, não e sim, é, na verdade, talvez ou depende."

trecho de 'Xadrez, Truco e Outras Guerras', de José Roberto Torero


domingo, 23 de março de 2008


O Outono é a estação do ano que sucede o Verão e antecede o Inverno. É caracterizado por queda na temperatura , (excepto nas regiões próximas ao equador) e pelo amarelar das folhas das árvores que indica a passagem de estações.

O Outono do hemisfério norte é chamado de "Outono boreal", e o do hemisfério sul é chamado de "Outono austral". O "Outono boreal" tem início, no hemisfério norte, em 23 de setembro e termina em 21 de dezembro. O "Outono austral" tem início, no hemisfério sul, em 20 de março e termina em 20 de junho.


.. e GRAÇAS A DEUS o nosso outono chegou \o/


sábado, 15 de março de 2008

Laços


É incrível como alguns laços parecem nunca se romper. Há pessoas que, não importa quanto tempo passe ou quantas coisas aconteçam, quando vc as reencontra, é como se nunca houvesse havido distância. É incrível como a gente cresce, e algumas pessoas permanecem especiais, crescem conosco; acompanham-nos. É incrível como, apesar de ser impossível, eu me lembro meio que exatamente de quando eu tinha apenas um ano de idade e puxava os cabelos de um menino gordinho que, não havia como eu saber na época, era o meu primo. Meu primo Tiago, precisamente dez anos mais velho do que eu; aquele que implicava com a Laura por causa de árvores de sagu e que, quando eu perguntei o porquê de eles estarem em Viamão tão inesperadamente, me disse que era pra comprar queijo!! Aquele que se mudou pra Londres, que visitou Paris, assistiu a shows fantásticos e escolheu a mais bonita das polonesas pra ser sua namorada. Que faz a tia Ivanise chorar sempre que embarca num avião no Aeroporto Salgado Filho, mas que prometeu voltar pra casa. Espero que volte mesmo. E ai dele que não traga a Renata junto! Porque, mesmo pra essa srta. coração de pedra aqui; doeu deixá-lo, mais uma vez, partir. TE AMO, PRIMO!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Mulher depois que ama

Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama. Reparem, estou dizendo, depois que ama. Não estou me referindo a ela enquanto está no ato do amor.

Disto se pode falar também, e a literatura a partir do romantismo e depois o cinema, modernamente, já tentaram de várias formas simular na relação amorosa como a mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da alma.

Mas, quando digo "depois que ama", refiro-me ao estado de graça que a envolve após o gozo ou gozos e que perdura horas e horas e às vezes dias. Fica macia que nem gata aos pés do dono. Mais que gata, uma pantera doce e íntima. Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga.

A vida não transcorre mais a contrapelo. Desliza. Ela tem vontade de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento. Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne. É tempo do adágio, de calma e fruição.

Neste período, aliás, o tempo pára. Em estado de graça ela se desinteressa do calendário. O cotidiano já não a oprime. As tarefas da casa, pesadas em outras ocasiões, tornam-se leves, os
compromissos mais enjoados podem ser acertados, as tragédias dos jornais já não lhe dizem tanto respeito. O trabalho do escritório torna-se leve, pode ser feito quase cantando.

Algumas desenvolvem uma súbita necessidade de tecer, outras de aninhar. Querem bordar, costurar, arrumar coisas na casa, entram em clima de nidificação. É a hora de uma ociosidade amorosa. Outras querem presentear o amado e o mundo com pratos sutilíssimos e saborosos. O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se angeliza e glorificada, pervaga pela casa.

O homem, animal desatento, às vezes não se dá conta. Em geral, nunca se dá conta. Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor, e depois se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina.

Na verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se em torno de si esse balé de ternura. Deveria o homem avisar ao escritório: hoje não posso ir, estou assistindo à reverberação do amor naquela que amo. E como isto se assemelha à floração rara de certas plantas, os amados deveriam interromper tudo: seus
negócios e almoços e ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a deslanchar.

Já vi algumas mulheres assim. Era capaz de pressentir a 115 m que elas estavam levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram. Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma. Que não esteja distraído o parceiro ou parceira. Ela tem mesmo um perfume diverso das demais. É um cio diferente. É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, tranqüila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.

As outras mulheres percebem isto e a invejam. Os machos farejam e se perturbam. É como se estivessem num patamar seguro a se contemplar. É quase parecido a quando a mulher vive a maternidade. Mas aqui é ainda diferente, porque na maternidade existe algo concreto se movimentando dentro dela. Contudo, nessa atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de amor, é diverso, porque ela está acariciando uma imponderável felicidade.

Estou falando de uma coisa que os homens não experimentam assim. O gozo masculino é mais pontual e parece se exaurir pouco depois do próprio ato. Só os escolhidos, os de alma feminina, vez por outra, o sentem prolongar-se dentro de si. Mas em geral, é diferente. Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem como se tivessem tirado um fardo do ombro, outros acendem o cigarro, vestem suas ansiedades e voltam ao trabalho.

É constatável, no entanto, que o homem apaixonado também transmite força, alegria, energia. Ele oscila entre Alexandre o Grande e o artista que chegou ao sucesso.! Também brilha. Mas é diferente. E não é disto que estou falando, senão do gozo feminino que não se esgota no gozo e se derrama em gestos e atenções por horas e dias a fio.

Freud andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou equivocadamente aquela questão de que a mulher teria inveja do homem por ser este um animal fálico, etc.

Convenhamos: inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que ocorre com as mulheres, que ao serem amadas atingem o luminoso êxtase de si mesmas, como se tivessem rompido uma escala de medição trivial para lá da barreira dos gemidos e amorosos alaridos. É isso: quando a mulher foi amada e bem amada, ela ingressa nessa atmosfera
sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas estáticas descreveram. Uma aura de mistérios as envolve.

E isso, por não ser muito trivial, por não ser nada profano, talvez se assemelhe aos mistérios gozosos de que muitos místicos falaram.


(Affonso Romano de Sant'Anna)